Dentistas usam principalmente o bloco K00 a K14 da CID-10, dedicado à cavidade oral, dentes e maxilares. Os mais frequentes são K02 (cárie), K04 (polpa e periápice, usado em canal), K05 (gengivite e periodontite), K08 (outros transtornos dos dentes) e Z01.2 (exame dentário). Use o CID só com pertinência clínica e autorização do paciente.
O dilema de quem opera uma clínica odontológica é quase sempre o mesmo: procurar o 'CID do procedimento' (canal, extração, implante) quando a classificação descreve o diagnóstico. Este guia compara as duas lógicas, diagnóstico versus procedimento e código específico versus genérico, e entrega cerca de 30 códigos organizados por situação clínica, em vez de uma lista de 300 linhas.
O que é o CID e como ele se aplica à odontologia?
A CID-10 é a Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde, publicada pela OMS e adotada no Brasil. Na odontologia, o foco é o bloco K00–K14 (doenças da cavidade oral, das glândulas salivares e dos maxilares), que pertence ao Capítulo XI (K00–K93). Somam-se alguns códigos Z, como Z01.2 e Z96.5, e S, como S02.5 (fratura de dente).
A estrutura de um código é simples: uma letra, dois dígitos que formam a categoria e uma subdivisão após o ponto. Em K04, que reúne as doenças da polpa e dos tecidos periapicais, o K04.0 é pulpite e o K04.1 é necrose da polpa. Quanto mais subdivisão você usa, mais precisa fica a leitura do prontuário.
A OMS já publicou a CID-11, mas o uso cotidiano em atestados, laudos e convênios no Brasil segue sendo a CID-10. Antes de qualquer mudança no fluxo de trabalho da clínica, confirme com o CRO e com cada operadora qual versão é exigida.
Quais são os CIDs mais usados pelo dentista?
Os códigos abaixo cobrem a maior parte do que aparece na rotina do consultório. Cada linha segue o padrão código | descrição oficial | exemplo de quando usar. Para os códigos que não estão aqui, consulte a fonte oficial (OMS, DATASUS ou o CRO do seu estado).
Cárie
- K02.0 | Cárie limitada ao esmalte | mancha branca ativa ou lesão inicial sem cavitação em dentina.
- K02.1 | Cárie da dentina | lesão cavitada que atinge dentina, indicação de restauração.
- K02.8 | Outras cáries dentárias | cárie especificada que não se enquadra em K02.0 a K02.4.
- K02.9 | Cárie dentária não especificada | uso provisório, quando o dado clínico ainda não permite classificar.
Dentística e desgaste
- K03.0 | Atrito dentário excessivo | desgaste incisal em paciente com bruxismo.
- K03.1 | Abrasão dentária | lesão cervical por escovação traumática.
- K03.2 | Erosão dentária | perda de esmalte por refluxo ou dieta ácida.
- K03.6 | Depósitos (acreções) nos dentes | cálculo supragengival em paciente para profilaxia.
Endodontia
- K04.0 | Pulpite | dor espontânea e pulpite irreversível sintomática.
- K04.1 | Necrose da polpa | dente sem resposta ao teste de vitalidade.
- K04.4 | Periodontite apical aguda de origem pulpar | dor à percussão com alteração periapical aguda.
- K04.5 | Periodontite apical crônica (granuloma apical) | lesão periapical crônica visível na radiografia.
- K04.6 | Abscesso periapical com fístula | dente com fístula ativa na mucosa.
- K04.7 | Abscesso periapical sem fístula | coleção purulenta periapical sem drenagem.
- K04.8 | Cisto radicular | imagem radiolúcida compatível com cisto periapical.
Periodontia e gengiva
- K05.0 | Gengivite aguda | inflamação gengival de início recente.
- K05.1 | Gengivite crônica | sangramento à sondagem sem perda de inserção.
- K05.2 | Periodontite aguda | quadro periodontal agudo, com dor e supuração.
- K05.3 | Periodontite crônica | perda de inserção e bolsas periodontais, indicação de raspagem.
- K06.0 | Retração gengival | exposição radicular com hipersensibilidade.
Cirurgia, ortodontia e demais situações
- K00.1 | Dentes supranumerários | mesiodens identificado em radiografia panorâmica.
- K01.1 | Dentes impactados | terceiro molar incluso com indicação cirúrgica.
- K07.3 | Anomalias da posição dos dentes | apinhamento ou giroversão em avaliação ortodôntica.
- K07.4 | Maloclusão não especificada | relação oclusal alterada, ainda sem classificação detalhada.
- K07.6 | Transtornos da articulação temporomandibular | estalido e dor articular em paciente com DTM.
- K08.1 | Perda de dentes devida a acidente, extração ou doença periodontal localizada | paciente com ausência dentária para planejar prótese.
- K08.3 | Raiz dentária retida | fragmento radicular remanescente após fratura coronária.
- K10.3 | Alveolite da mandíbula | dor pós-extração com alvéolo seco.
- K12.0 | Estomatite aftosa recorrente | aftas recorrentes em consulta de estomatologia.
- S02.5 | Fratura de dente | trauma com fratura coronária.
Qual é o CID para canal (endodontia)?
Não existe 'CID do canal': o tratamento endodôntico é um procedimento, e o CID descreve o diagnóstico que o motivou. Os códigos mais usados são K04.0 (pulpite), K04.1 (necrose pulpar), K04.4 e K04.5 (periodontite apical aguda e crônica) e K04.6 e K04.7 (abscesso periapical com e sem fístula).
A lógica de decisão cabe em três passos: confirmar o diagnóstico clínico e radiográfico, escolher a subdivisão de K04 que o descreve e registrar o código no prontuário, vinculado ao dente. O procedimento (pulpectomia, tratamento de canal, retratamento) fica na evolução clínica e no orçamento, não no campo de diagnóstico.
Alerta de verificação: algumas listas e respostas automáticas de buscadores trazem códigos trocados. O K04.5 já apareceu descrito como 'abscesso sem fístula', o que está incorreto. O K04.5 é periodontite apical crônica (granuloma apical), e o abscesso periapical sem fístula é o K04.7. Antes de copiar qualquer código, confira a descrição oficial na CID-10 da OMS ou do DATASUS.
Exemplo preenchido de atestado de comparecimento (endodontia)
Atesto, para os devidos fins, que Maria da Silva, CPF 000.000.000-00, compareceu a esta clínica em 10/03, das 14h às 15h30, para tratamento odontológico (endodontia). Diagnóstico (CID-10): K04.1 – Necrose da polpa, dente 36.
( X ) Autorizo a inclusão do CID neste documento. Assinatura do paciente: ____________. Data: __/__/____. Carimbo, CRO e assinatura do cirurgião-dentista.
Qual é o CID de consulta de rotina, implante e extração?
Consulta de rotina usa Z01.2, implante já instalado usa Z96.5 e extração não tem CID próprio: registra-se o diagnóstico que a motivou (cárie extensa, doença periodontal, dente incluso) e, depois, K08.1 se o foco for a perda dentária. As respostas abaixo seguem o formato de pergunta e resposta.
O que é o CID K08?
É a categoria 'Outros transtornos dos dentes e de suas estruturas de sustentação'. Reúne K08.0 (exfoliação por causas sistêmicas), K08.1 (perda de dentes por acidente, extração ou doença periodontal), K08.2 (atrofia do rebordo alveolar desdentado), K08.3 (raiz retida), K08.8 e K08.9.
O que é o K08.1?
É a perda de dentes devida a acidente, extração ou doença periodontal local. Serve para descrever a condição de ausência dentária, por exemplo, ao planejar prótese ou implante.
Qual CID usar em check-up e consulta sem queixa?
Z01.2, exame dentário. Se a avaliação identificar uma doença, prefira o código da doença, como K02.1 para uma cárie de dentina.
E para quem já tem implante?
Z96.5, presença de implante de raiz dentária e mandibular. Cabe em manutenção e acompanhamento de pacientes já reabilitados. Para a fase de planejamento, o diagnóstico que justifica o implante costuma ser o K08.1.
Qual a diferença entre K02, K02.8 e K02.9?
K02 é a categoria cárie dentária. K02.8 é 'outras cáries dentárias', para cárie especificada que não se enquadra em K02.0 a K02.4. K02.9 é 'cárie não especificada'.
Código específico ou genérico?
- Específico (K02.1, K08.1): descreve o achado, deixa o prontuário legível anos depois e facilita a conversa com a operadora. Exige registrar o dado clínico no momento do atendimento.
- Genérico (K02.9, K08.8, K08.9): é rápido de preencher, mas informa pouco, enfraquece o histórico e tende a gerar perguntas da operadora. Use apenas quando o dado clínico realmente não permite classificar.
Quando o dentista pode colocar o CID no atestado ou laudo?
O CID só entra no documento quando há pertinência clínica e consentimento ou solicitação do paciente. O motivo é que o diagnóstico é dado de saúde e, portanto, dado pessoal sensível pela LGPD (Lei 13.709/2018). Para aprofundar, veja consentimento e LGPD na clínica e regras de CID, dias e validade em atestados.
Sem autorização, o atestado traz apenas o período de afastamento ou o comparecimento. A redação exata deve ser confirmada no Código de Ética Odontológica (Resolução CFO 118/2012) e com o CRO do seu estado, porque este guia não substitui a orientação do conselho.
- Atestado sem CID: protege o sigilo, dispensa campo de autorização e atende ao que o paciente costuma precisar (comprovar comparecimento ou afastamento). Pode ser insuficiente quando o empregador ou a operadora pede o diagnóstico.
- Atestado com CID: atende a quem exige o diagnóstico, mas expõe dado sensível a terceiros. Exige pertinência clínica, autorização registrada e, de preferência, ciência assinada pelo paciente.
Modelo curto sem CID
Atesto que [nome] compareceu a esta clínica em [data], das [hora] às [hora], para atendimento odontológico. [Se necessário, a critério do profissional: necessita de afastamento por __ dia(s).] Local, data, carimbo, CRO e assinatura.
Modelo curto com CID e ciência do paciente
Atesto que [nome] compareceu a esta clínica em [data] para atendimento odontológico. CID-10: [código – descrição]. Ciente e de acordo com a inclusão do CID: ____________ (assinatura do paciente). Local, data, carimbo, CRO e assinatura.
Como registrar o CID corretamente no prontuário e no convênio?
Registre o CID junto da evolução clínica e do odontograma, ligado ao dente e ao procedimento. Esse vínculo mantém o histórico consistente e é compatível com a lógica do prontuário eletrônico previsto na Lei 13.787/2018. Detalhes do conteúdo mínimo estão em o que deve conter no prontuário do paciente.
No convênio, o diagnóstico informado deve ser coerente com o procedimento solicitado, e a incoerência é um motivo comum de questionamento por parte das operadoras. Um K02.1 ao lado de um pedido de tratamento endodôntico, por exemplo, gera dúvida. Confirme as exigências de cada operadora e do contexto TISS/ANS, e veja como reduzir glosas com informações consistentes. Código correto ajuda a reduzir questionamentos, mas não garante pagamento.
Se você está avaliando ferramentas, confira o que não pode faltar em um sistema para clínica odontológica. No Consultório Fácil você consulta o CID durante o atendimento, usa o odontograma e assina o prontuário e os documentos com certificado ICP-Brasil (PAdES).
Quais são os erros comuns ao usar o CID na odontologia?
Os quatro erros abaixo concentram a maior parte dos problemas de registro. Tratá-los como checklist de auditoria interna (ciclo PDCA) costuma ser suficiente para a clínica corrigir o processo.
- Confundir procedimento com diagnóstico: procurar 'CID de extração' ou 'CID de canal' em vez do diagnóstico que motivou o procedimento.
- Usar código genérico por conveniência: K08.9 ou K02.9 quando há dado clínico para um código específico.
- Copiar códigos de listas sem conferir a descrição oficial: o caso do K04.5 trocado pelo K04.7 mostra o risco.
- Expor o CID a terceiros sem autorização: entregar documento com diagnóstico a empregador, escola ou familiar sem consentimento do paciente.
Como transformar o uso correto do CID em indicador?
Meça, por trimestre, três KPIs simples: o percentual de prontuários com CID específico (meta interna acima do seu benchmark atual), o percentual de registros com K08.9 ou K02.9 e o número de atestados com CID sem autorização registrada, que deve ser zero. Compare os resultados por profissional e use o PDCA para corrigir desvios. Se quiser, peça a tabela de CIDs odontológicos em formato de cola rápida (checklist em PDF) e assine a newsletter para receber os próximos guias.
Perguntas frequentes
O que é o CID K08?
É a categoria 'Outros transtornos dos dentes e de suas estruturas de sustentação'. Inclui K08.0 exfoliação por causas sistêmicas, K08.1 perda de dentes por acidente, extração ou doença periodontal, K08.2 atrofia do rebordo alveolar, K08.3 raiz retida, K08.8 e K08.9.
Qual é o CID Z01.2?
É o exame dentário. Usado em consultas de rotina, check-up ou avaliação sem queixa ou diagnóstico específico. Se houver diagnóstico, prefira o código da doença.
O que é o CID Z96.5?
É a presença de implante de raízes dentárias e mandibulares. Usado em pacientes que já têm implante, como em manutenção ou acompanhamento.
O que significa o CID 10 K02?
É a cárie dentária. As subdivisões são K02.0 limitada ao esmalte, K02.1 dentina, K02.2 cemento, K02.3 cárie estacionária, K02.4 odontoclasia, K02.8 outras e K02.9 não especificada.
O que é o CID 10 K08.1?
É a perda de dentes devida a acidente, extração ou doença periodontal local. Descreve a condição de ausência dentária, e não o procedimento de extração.
O que significa o CID 10 K02.8?
São outras cáries dentárias, usado quando a cárie é especificada mas não se enquadra em K02.0 a K02.4.
O dentista é obrigado a colocar o CID no atestado?
Não há obrigação genérica de incluir. A inclusão depende de pertinência clínica e de autorização ou solicitação do paciente. Confirme a redação com o CRO e com o Código de Ética Odontológica.
Qual é o CID para canal?
Não existe um CID para o procedimento. Usa-se o diagnóstico que o motivou, como K04.0 (pulpite), K04.1 (necrose pulpar), K04.4 ou K04.5 (periodontite apical) e K04.6 ou K04.7 (abscesso periapical com ou sem fístula).